“Amamos quem nos faz sentir normais…”

Chegamos na segunda parte da entrevista com o ator e diretor Hugo Bonemer. Não lamentem. Suas respostas ricas de informações, sensibilidade, e percepção de entendimento do ofício, vão continuar aqui para serem lidas, relidas, até entrarem  na mente e não serem esquecidas. Me dê a mão e vamos embarcar nessa viagem de conhecimento.

Foto: Reprodução/EGO

Hugo Bonemer (Foto: Reprodução/EGO)

Cjmartim O público anda receptivo com os musicais que andam ocupando grandes teatros no Brasil? Apesar de muitas adaptações de texto de fora, os musicais daqui conseguem criar um diferencial para dar uma nova possibilidade de visão do espetáculo?

Hugo Bonemer: O público me parece muito receptivo ao formato musical. Música envolve, a dança fascina, e um bom roteiro promove catarse num espectador desprevenido. É um formato muito interessante e popular. O teatro de revista contempla os artistas nacionais encaixando suas músicas em narrativas e isso é de uma importância incomensurável, pois um país tem que ter orgulho dos seus artistas, e aprender com eles, antes de descobrir a roda.Ainda temos muito que aprender com os musicais da Broadway, e muito que aprender com os artistas que homenageamos. Imagino quando juntarmos o que aprendemos com os dois! Vejo um movimento forte por montagens brasileiras autorais, produzidas, escritas e compostas por brasileiros, e me animo muito com isso.

CjmartimA peça “A História dos Amantes”, mostra diferentes tipos de homens e seus relacionamentos marcados por conflitos e alegrias. Acredita que essa fama que os homens levam de serem mimados e imaturos tem fundamento? Ou as mulheres estão exigentes demais?

Hugo Bonemer: A peça sugere que o verdadeiro macho alfa, na nossa sociedade, é a mulher. Que todas as invenções, descobertas e obras de arte, mesmo nos momentos históricos mais machistas, foram em função delas. Que uma mulher bem treinada pelas anciãs da família, sabe comandar a instituição familiar, fazendo o homem acreditar, ingenuamente, que manda em alguma coisa. Elas saiam do teatro muito satisfeitas com essa constatação,o que nos garantiu um ano a mais de sobrevida, e não sou eu doido de me opor a elas.

CjmartimSeria correto afirmar que interpretação (vem de dentro para fora) e representação (de fora para dentro)?

Hugo Bonemer: Gosto de me atentar ao significado da palavra. Representar é colocar uma história na frente da plateia. Interpretar é traduzir, colocar de forma mais simples e compreensível.

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Hugo Bonemer e Lucinha Lins no musical “Rock in Rio – O Musical” (Foto: Reprodução/Ultimosegundo )

Cjmartim A fama assusta com esse “amor repentino” das pessoas, que passam a ficarem ávidas por notícias, curiosidades da vida pessoal e ainda tem que lidar com a imprensa que começa um processo de vasculhamento da vida do artista, descobrindo coisas do passado, presente e muitas vezes criando um futuro para vender revista?

Hugo Bonemer: Acredito que, quando dizemos “eu te amo”, estamos amando como os outros nos fazem sentir. Amamos quem nos faz sentir normais, e por isso, se interessar pela vida do artista, sejam coisas boas, ou não, é, entre outras, uma forma de nos sentirmos bem.Ao ver que a bunda da atriz também tem celulite, ou que o ator ganhou um prêmio, amamos a nós mesmos.Desta forma, procuro não me sentir invadido, por mais que seja um sentimento involuntário, e tento aceitar como um processo natural. Acho que gosto mais da minha lógica, do que da sua, que me pareceu muito assustadora, quando li a pergunta.

Cjmartim À medida que vão acumulando personagens na carreira, o ator não corre riscos de perder sua identidade? Interpretar tantos tipos, emprestar seu corpo e suas emoções para tantos trabalhos, que não pode acabar confundido sua real personalidade?

Hugo Bonemer: Terapia está aí pra isso. Aliás, gosto de pensar, que a profissão do ator e a do psicólogo são muito parecidas, ao passo que cada personagem é um paciente, a ser tratado.Digo isso, porque a relação tem que ser tão profissional quanto, e sem julgamento. No mundo ideal, sairíamos do mesmo jeito que entramos no trabalho. Entretanto, na prática, saímos sempre diferentes. Isso porque, além do psicólogo, fazemos também o papel do paciente. Emprestamos nossos músculos, e não apenas nosso raciocínio,o que faz de cada personagem uma experiência transformadora. E deve ser. Um ser-humano, aprendendo a ser humano e que pra isso finge ser outros seres-humanos, às vezes não tão humanos assim: É como defino, poeticamente, o que faço. Gosto de me colocar à prova, e descobrir um ponto de vista, bonito, ou não, em cada trabalho.

CjmartimComo funciona sua relação com as redes sociais e se essas plataformas não criam uma ilusão com os fãs, de que o artista pode ser seu amigo, só pelo simples fato de ter curtido ou comentado em alguma publicação?

Hugo Bonemer: Acho que gostar de gente é uma característica interessante para qualquer profissão, e as redes sociais aproximam as pessoas que, talvez, por meios naturais, não se conheceriam. Eu posso não frequentar a casa de todos com quem converso no Twitter, mas tiro dali conversas espetaculares. Tento tratar todos com carinho, porque é muito bom saber que, além da nossa mãe e dos nossos amigos, tem mais pessoas que torcem pela nossa felicidade. E se uma curtida faz uma felicidade tão grande de volta, me custa um clique! Por que, não?

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