“Penso que você não foge do ego, você o domina e não se deixa ser dominado por ele”

Luiz Carlos Félix, o Ermínio Pimenta da novela “Cúmplices de um Resgate”, é um ator de consistência artística. Parece algo simples, mas em tempos onde existem rostinhos bonitos que caem de paraquedas em uma novela e somem sem deixar rastros, não seria leviano dizer, que Luiz vai permanecer por muitos anos no teatro, cinema e TV, porque um ator de verdade finca seu espaço, independente de outros colegas surgirem e também se tornarem sucedidos em suas carreiras.

Nessa entrevista exclusiva, Luiz Carlos conta um pouco do prazer em integrar o elenco da novela do SBT, as paixões pelo tênis e fotografia e como lida com fama, ego e o público em geral. Vamos ser cúmplices de conhecimento? Então, é só começar a leitura.

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Luiz Carlos Félix: foco, amadurecimento e talento. Foto/Crédito: Eddu Ferraccioli

Cj Martim: Como surgiu o convite para participar da novela “Cúmplices de um Resgate”? Assistiu algumas cenas da versão mexicana exibida em 2002?

Luiz Carlos: Fiz a novela “Vende-se um Véu de Noiva’’ há alguns anos no SBT. O núcleo de dramaturgia já me conhecia, e para esse novo projeto com “Cúmplices de um Resgate”, veio o convite para fazer o Ermínio. Essa é a segunda novela que faço com a  Iris Abravanel.

Cj Martim: Como construiu seu personagem “Ermínio Pimenta” para fugir do estereótipo do caipira retratado nas novelas?

Luiz Carlos: Como eu sou do interior de Goiás, passei muitos momentos da minha vida no campo. Minha família sempre esteve ligada à fazenda, então, passei muitos momentos da minha infância e adolescência andando a cavalo, tendo convívio com pessoas do campo. Um pouco do Ermínio vem dessas memórias, do modo simples de ser das pessoas do interior.  E, por outro lado, o Ermínio surge com a proposta da novela ser divertida, engraçada e voltada para o cômico.

Cj Martim: Como funciona seu processo de memorização? Existe liberdade para colocar “cacos” no texto?

Luiz Carlos: Existem pelo menos dois jeitos de memorizar: você pode memorizar através da repetição ou da emoção. Eu memorizo através da emoção. É claro que a repetição vem junto de algum modo, mas é pela emoção do texto que registro, memorizo e crio as cenas. Há uma certa liberdade de improvisação sim. Estamos fazendo uma novela infantil com uma pegada cômica, então, é bom ter essa liberdade para criar e, com isso, vêm alguns “cacos” (risos).

Luiz Carlos Félix e Murilo Meola

Luiz Carlos e Murilo Meola. Dupla de talento. Foto: Reprodução

Cj Martim: Descreva sua emoção em ter participado do espetáculo “Os Sertões”, baseada no livro de Euclides da Cunha. Acredita que, no geral, adaptações de livros para TV, Cinema e Teatro têm boas execuções no país? Existe uma obrigatoriedade de ser fiel à obra?

Luiz Carlos: “Os Sertões” foi um marco na minha carreira profissional. Nunca estudei tanto para fazer um trabalho como tive que estudar para fazer “Os Sertões”. O livro de Euclides da Cunha é uma pedreira literária, quem já leu sabe. Foi emocionante criar o espetáculo. O livro é muito exigente e a peça não poderia ser diferente, então, deu para aprender muito, foi uma experiência riquíssima. Aprendi muito com Zé Celso nos sete anos em que trabalhei no teatro Oficina. Tenho muito respeito pelo artista que ele é.

Acredito que as adaptações de livros para TV e Cinema são muito difíceis de se fazer sem que deixem a desejar. Mas é compreensível, porque transmitir a emoção, as imagens sugeridas por um bom livro, seja para teatro, TV ou Cinema, é muito difícil. Os livros são ricos em informações, e passar o seu conteúdo em poucas horas é um grande desafio. Alguns trabalhos necessitam de fidelidade à obra, outros nem tanto. Não vejo obrigatoriedade em ser fiel à obra.

Cj Martim:  Como o tênis e a fotografia entraram em sua vida e como eles auxiliam em seu bem estar e na sua percepção de mundo  e o comportamento das pessoas?

Luiz Carlos: O tênis é apenas uma diversão, um momento de lazer onde junto o esporte ao cuidado com a saúde e o bem estar, além de relaxar. Quanto à fotografia, enxergo como uma forma de expressão, uma maneira que tenho de observar o mundo. Gosto dos detalhes, o olhar das pessoas, um frame qualquer visto a todo instante. A fotografia está em todo lugar o tempo todo. É apenas um olhar, é a maneira como você olha o mundo lá fora.

Cj Martim:  Você integrou o elenco da novela “A Favorita”. Qual o elemento fundamental de um texto de João Emanuel Carneiro?

Luiz Carlos: João Emanuel é um gênio. A Favorita foi um marco. Ele sabe como chegar no mais íntimo do ser humano, é como se trouxesse o inconsciente à consciência. Os personagens de João Emanuel são vivos, eles existem de verdade, não são de mentirinha. Isso dá força à trama.

Luiz Carlos Félix_Foto de Eddu Ferraccioli

Luiz Carlos Félix: ator com consistencia artística. Foto/ Crédito: Eddu Ferraccioli

Cj Martim: Com o acúmulo de personagens, o ator não corre o risco de perder sua identidade? Como não misturar fantasia e realidade?

Luiz Carlos: É preciso ficar atento quanto a isso. Eu não diria nem tanto pelo acúmulo, mas pela intensidade de cada personagem. Alguns personagens exigem mais envolvimento, e isso pode refletir na personalidade do ator se ele não estiver bem e com os pés no chão. Não podemos esquecer nunca do que somos e o que estamos fazendo, caso contrário, pode ser que nos percamos.

Cj Martim: Como fugir da chamada “Egotrip”, tão comum em artistas enfeitiçados pelo mundo da fama e por serem tratados de forma sempre superlativa pelas pessoas?

Luiz Carlos: O ego faz parte da nossa personalidade, está em tudo que fazemos. Penso que você não foge do ego, você o domina e não se deixa ser dominado por ele. É bom quando há equilíbrio entre as partes. Não é bom ser enfeitiçado e nem enfeitiçar, encontrar o equilíbrio nesse jogo é fundamental. Isso serve para o público também. Afinal, o artista é um ser humano como qualquer um. Talvez ele seja incomum, mas isso não o torna diferente dos outros no que se refere ao estado essencial da vida. “O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração.” Cito “O Pequeno Príncipe” porque Antoine Saint-Exupéry fala sobre deixar o ego de lado e agir com o coração. A razão, a mente, muitas vezes nos enganam. Apenas o coração fala com a verdade.  O ego não, ele é superficial, ele mente, então é preciso ficar atento.

Cj Martim: Qual a importância dessa novela para sua carreira no momento e quais projetos profissionais vão alimentar sua alma artística daqui pra frente?

Luiz CarlosEstou fazendo parte de um marco na teledramaturgia brasileira. O SBT quebrou paradigmas e criou uma nova linguagem e estilo próprios de fazer novelas dirigidas ao público infanto-juvenil. E deu certo. O núcleo de dramaturgia e toda a equipe técnica estão fazendo um trabalho lindo. Uma novela que nos remete ao lado lúdico e inocente do ser humano, convidando não só as crianças, mas aos adultos também a ver a nossa criança interior. É preciso deixar nossa criança interior sair e brincar, se divertir com as coisas simples, suavizar mais a nossa vida. Estou muito feliz e honrado por integrar o elenco de “Cúmplices de um Resgate”.

O elenco está comprometido com o trabalho, estamos muito satisfeitos com os resultados. Nós criamos alguns grupos de WhatsApp para acompanhar a novela, para ir ao teatro e para praticar esportes juntos. Isso mostra uma integração e harmonia no trabalho. Há muito respeito entre todos e cada um quer ver o crescimento um do outro, o melhor de cada um. O resultado não poderia ser diferente, um grande sucesso!

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