“Não dê a ninguém o poder de te colocar pra baixo com uma palavra”

Hugo Bonemer prepara-se para estrear o musical Ordinary Days”, dia 5 de agosto, no Teatro Serrador, Rio de Janeiro. Noveleiros de plantão não se preocupem! O ator também confirmou presença na primeira fase da próxima novela das 21h, A Lei do Amor”, dos autores Vicent Villari e Maria Adelaide Amaral.

Em tempos alucinantes e confusos, Hugo Bonemer nos oferece a opção de desacelerar o ritmo, a prestar atenção nos detalhes, nesse mergulho intenso de conhecimento e sensibilidade.

Um abraço caloroso de Hugo, abraço esse, transmitido com suas palavras, com seu olhar e esse talento que causa aquela ansiedade gostosa em acompanha-lo em qualquer plataforma de arte que se encontre.

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Hugo Bonemer. Talento, foco e carisma. Foto: Reprodução

Cj Martim: Explica para o público como ele pode ajudar na consolidação e durabilidade do musical “Ordinary Days”. Qual o diferencial desse espetáculo para ter conquistado sua atenção?

Hugo Bonemer: Ordinary Days pode ser ajudado comprando ingressos antecipados no site do Peixe Urbano. Como não poderia ser diferente no teatro, é a desconstrução de uma certeza que não agrega: A protagonista tem certeza de que não será feliz, após uma perda, até que descobre que é possível. Fazemos isso o tempo todo, e é lindo ver alguém fazer bem de perto, no teatro.

Cj Martim: Entrou em êxtase com a apresentação do “Rock in Rio- O Musical”, em Lisboa, no festival Rock in Rio? Perdeu o controle alguma vez das suas emoções, devido à intensidade da sinergia do público?

Hugo Bonemer: À primeira vista parece uma grande pintura com 70 mil cores de um quadro formando um mar de cabeças. De repente elas gritam, dançam, cantam junto… E é lindo. Só aí existe a certeza de que são seres vivos, receptivos pra um show. Pensei que fosse ter algum descontrole, mas não aconteceu. Acredito que a simplicidade do enredo tenha me ajudado, não me levando a uma complexidade emocional que me deixasse vulnerável.

Cj Martim: Alguma série, novela ou minissérie pode integrar o elenco este ano?

Hugo Bonemer: Entro, pela primeira vez, na primeira fase de “A Lei do Amor”, novela das 21h, dos Estúdios Globo, que estreia em outubro e dublo, pela primeira vez, uma animação da Dreamworks chamada Trolls. 

Cj Martim: Como surgiu o convite da peça “Enterro dos Ossos” e o processo do nascimento da composição do seu personagem, embalado pelos diretores Camila Gama e Sandro Pamponet e com o texto do Jô Bilac?

Hugo Bonemer: Surgiu depois de meses desejando dizer um texto que colasse comigo. Comecei a dizer, aos quatro ventos, as opiniões que me eram até então mais particulares. Acabei, então, encontrando quem estivesse na mesma sintonia.

Cj Martim: Se você se desconstruisse como indivíduo, o que o público presenciaria?  Um ator fatigado com a profissão ou sua queda provocada pela falta de arte?

Hugo Bonemer: A graça é justamente não saber o que acontece depois. Quem espera alguma coisa do processo está construindo, e não desconstruindo. Também não acho que seja uma opção. Nem do artista. Nem do público. A desconstrução me parece parte do processo natural da vida e o sofrimento é a tentativa de segurar as migalhas das coisas que não existem mais. Fazemos teatro pra que artista e público façam essa desconstrução, com cuidado, juntos. Por isso há quem diga que ir ao teatro é como viver, mas sem o compromisso.

Cj Martim: Vale a pena alguns artistas baterem boca com seguidores nas redes sociais, sabendo que estamos em uma geração de jovens mimados, que percebem a torneira aberta de informações, mas não se dão ao trabalho de fechar a mesma, para analisar o caos?

Hugo Bonemer: Bater boca, não. Conversar, sempre. Os jovens tem a oportunidade mostrar o que pensam, sem filtro. Incentivar a ética, nos jovens, me parece ser mais interessante do que enfiar goela abaixo qualquer moral, porque ela não se sustenta por muito tempo. Muda de casa pra casa e é especialmente frágil num país com tantas culturas. Torço pra que nossos jovens reforcem um pensamento ético e percam menos tempo aceitando morais diferentes que só atrapalham na construção do caráter.

Cj Martim: Texto ruim é uma espécie de “câncer avançado” para um ator? Nada mais pode ser feito?

Hugo Bonemer: Texto ruim vem de um juízo de valor muito particular. Eu tenho hoje só um critério para não gostar de um texto. Não topo se descubro nele uma forma de usar quem as pessoas são como chacota e fazer com que elas se sintam mal. Nós. Fazer com que nós nos sintamos mal. Humor, pra mim, é quando a gente ri junto. De resto, é só Bullying. Um texto mal escrito, cliché, repetitivo, ou com qualquer argumento que pareça pejorativo pode se transformar em uma maravilha nas mãos de um diretor e no corpo de um ator. Um bom texto facilita as coisas e torna o trabalho mais fácil, não necessariamente mais interessante. E um texto maravilhoso é um presente que a gente experimenta poucas vezes na vida. Nele não é preciso fazer nada. Às vezes nem precisa do ator.

Cj Martim: Qual agressão verbal sofreu ou já presenciou e que foi um soco no rosto para você?

Hugo Bonemer: Quando criança assoviava música clássica na escola e era chamado de “mulherzinha”, engordei 20kg e então virei o “baleia”. Na época foi um soco no rosto, porque eu não sabia que não eram agressões. Quando entendi que mulher não é um xingamento e a baleia é um animal maneirão, senti paz. A agressão diz muito mais sobre quem a tenta fazer do que quem recebe. O que dói muitas vezes é a tentativa dela, e não a palavra usada. Mas aí é hora de rever as amizades.

A maioria das coisas que a gente escuta não é, de fato, uma agressão, e quando a gente aceita que elas vão continuar vindo, só tem um jeito. Aprender a lidar. Elas mudam de nome, mas em geral são uma maneira de alguém se sentir bem às nossa custas, ou projetar os próprios medos. Vão tentar ferir seu caráter, seu profissionalismo e sua sexualidade. Ou seja, vão dizer que você não presta como colega, como profissional, ou como parceiro sexual. Não interessa se é, ou não, verdade, isso é assunto pra depois. Não dê a ninguém o poder de te colocar pra baixo com uma palavra. E não há fórmula pra resposta. Deve-se, ou não, ou o que responder. O mais importante é o que a tentativa de agressão causa na gente. É aí que importa. Tem que causar nada. Ou se causar, converte a energia pra abdominais, livros, sexo e viagens.

Cj Martim: Preconceito é algo que entristece você, causa ira ou ainda tenta explicar com paciência, que os argumentos usados pelos preconceituosos, são rasos e fruto da falta de percepção em entender que a ignorância tomou conta?

Hugo Bonemer: Alterno, confuso, entre as três atitudes, quando em relação aos outros. Em relação a mim, determinei um detox de preconceito. Se defendo que a mulher seja o que quiser, não uso puta como xingamento, e torço para que o pior que se possa chamar alguém seja “corrupto”.

Cj Martim: Explica por que a Lei Rouanet oscila entre mocinha e vilã da história e se essas mobilizações de artistas têm o intuito de mostrar ao público para não se alimentarem de ilusões propagadas na mídia, em relação à cena cultural do país.

Hugo Bonemer: Tudo no Brasil oscila entre mocinho e vilão porque temos a ideia cultural do bem e do mal. Ao invés de melhorar a lei, preferimos nos dividir entre duas torcidas rivais e gritar certezas.

A Lei rouanet é uma maneira de colocar a iniciativa privada em contato com artistas. Você não faz a IBM colocar milhares de reais pra fazer o Museu da Língua Portuguesa sem dar algum incentivo. Pois bem, aquele que é um dos museus mais maravilhosos do mundo (ou era, antes de pegar fogo, no ano passado) é mantido por uma parte do que seria imposto pago pela IBM ao governo. Assim são produzidos também espetáculos, filmes, séries e livros. A discussão feita hoje é se o dinheiro dessas empresas serve para contribuir com o crescimento da cultura ou privilegia poucos.

Quando alguém faz a biografia da Maria Bethânia com apoio da Lei Rouanet, poucos contestam. Entendemos que Bethania é patrimônio cultural brasileiro. Quando fizeram da Cláudia Leitte, pessoas caíram em cima. Alguém, na hora de aprovar o projeto, entendeu que a Cláudia também é. Minha opinião: Acho que é. Se deveria então ser distribuída gratuitamente em escolas? Acho. Se talvez uma biografia só deveria ser feita após o falecimento do artista? Pertinente! Se outros artistas por tempo de carreira deveriam ser contemplados antes de um artista mais jovem? Talvez.

Essas e outras perguntas podem e devem ser feitas, a fim de melhorar a lei. Da mesma forma, se um museu é mantido por uma empresa privada, ele poderia ser gratuito. Que se entenda uma forma de privilegiar conteúdo cultural a ser produzido em áreas menos privilegiadas. Que os teatros sejam revitalizados com parte do dinheiro investido. Se um musical é feito com a lei, quem sabe seu valor de ingresso devesse ser irrisório, ou se ainda alto, para manter um padrão exigido pelo teatro onde se apresenta então totalmente revertido a projetos sociais. Ou mesmo a um fundo de onde venha fomento para que sejam produzidos novos espetáculos em áreas mais afastadas do circuito Leblon.

Acabar com a lei, nesse momento, me parece um retrocesso. Nenhuma peça se faz de público, nenhum museu de visitantes. Especialmente no Brasil. Curioso que quem reclama da Rouanet não frequenta um museu ou o considera alimento para saúde do cérebro. Que a lei Rouanet não seja teta de enriquecimento de produtores e que não seja bode expiatório para uma guerra entre partidos. Que a Rouanet seja revisada, aprimorada, e não extinta.

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Hugo Bonemer. Foto: Reprodução

Cj Martim: Sem apartidarismo, o país tem um câncer chamado corrupção, sem tratamento, ou essa tentativa de olhar a doença pode trazer a cura?

Hugo Bonemer: Ser apartidário tem sido uma situação de inércia inerente, pra mim. Não consigo confiar em ninguém que vejo ali. Leio a Veja e a Carta Capital e acho as duas igualmente fanáticas. Não desejo me colocar na torcida organizada de nenhum lado e questiono os acusados e os acusadores. Então, decido que o melhor que posso fazer é pedir nas redes sociais que os seguidores se coloquem parados só do lado direito da escada rolante deixando a esquerda livre, e se habitem a usar fones de ouvido no metrô.

Cj Martim: Por que alguns atores se acomodam com determinados estereótipos propostos por diretores e autores, e o público tem a impressão que sempre faz o mesmo papel?

Hugo Bonemer: Gosto de pensar que ator é a criatura que gosta de ser pessoas diferentes, trocar de corpo, de voz e de temperatura. É massa de modelar para um diretor. Artistas são criaturas que tem algo a dizer e esse algo se tornou mais potente do que o trabalho de criação de um personagem. Ao contrário do ator, não desejam trocar. Desejam aprofundar. Quando um ator se vê como artista, embarca em uma pesquisa pessoal ou política. Aí fica difícil abandonar todas aquelas certezas, posicionamentos e vivências. É muito difícil se tornar artista, mais difícil é deixar de ser. Eu poderia chamar de café e feijão, azul e rosa, mas usei as palavras ator e artista. Cada um dá uma definição para essas palavras e eu as entendo assim, até isso é muito pessoal.

Entendo dessa forma porque assim meu cérebro processa um movimento que acredito que vá viver pro resto da vida: O alternar entre o desejo de criar personagens e a vontade de dizer pro mundo o que diz a criatividade que passa por mim. O de serem muitos, e o de ser, com afinco, eu mesmo. Acho que quem fica muito tempo sendo porta voz da mesma energia criativa causa a impressão de fazer o mesmo papel. O mais importante é que se sintam felizes assim, e não tenham a ideia tola de que precisam seguir o caminho de quem se sente bem sendo diferente.

Cj Martim: A interpretação realista é o melhor caminho ou o exagero, em cena, é mais interessante? Possibilita mais recursos e inovações?

Hugo Bonemer: Teatro de interpretação realista é o naturalismo editado. É só o que interessa. O mínimo necessário para que se entenda e acompanhe a história. A riqueza está no texto, não na simbologia. Não tem excesso de significado ou descobertas subliminares. Esse espelho que é apontado para a plateia é objetivo. Direto. Qualquer outra linguagem propõe um jogo mais rebuscado. Pede que a plateia descubra sentidos e viagem na linguagem. Quando se faz uma peça não realista é preciso ensinar o público a jogar. A linguagem precisa estar bem construída. Senão é como chamar para uma partida de poker quem só aprendeu a jogar truco.

Cj Martim: Sua arte é teimosa ou flexível com as circunstâncias apresentadas no trabalho?

Hugo Bonemer: Dosar teimosia com flexibilidade é parte da profissão e deveria ser ensinada nas aulas de teatro. Aprendi a me equilibrar na marra e faço a alquimia conforme o trabalho.

Ficou com vontade de mais? É só conferir duas entrevistas atemporais que o Hugo Bonemer concedeu ao nosso blog, ano passado.

Hugo revela sua experiência em novela

Hugo comenta sobre os musicais que participou

 

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