Lucas Bernardini: ‘Eu aprendi a distinguir quem me quer bem de quem me suga, de quem me inveja’

O ator e modelo Lucas Bernardini participou no início deste ano do seriado ‘A Cara do Pai’, interpretando o argentino Ramon, com toda graça e jovialidade. Nesta entrevista exclusiva, ao Cj Martim, Lucas revela toda sua positividade, mas também os conflitos internos que enfrentou.

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Lucas Bernardini. Foto: Jeff Segenreich

Em pleno domingo da Páscoa, não tem como não exibir esta entrevista, afinal os assuntos abordados, revelam transformações significativas na alma e na parte exterior do Lucas, esse homem que aprendeu a ser gigante e entendeu o que é percepção de mundo!

Cj Martim: Foi difícil manter a personalidade ou muitos tentaram moldar você, de acordo com suas preferências e ambições?

LucasTodo mundo ao longo da vida sofre manipulações alheia. Sempre há pessoas querendo dizer o que você deve fazer ou não, principalmente quando você é mais novo e inseguro. Eu considero que assim, pela personalidade que eu desenvolvi da adolescência pra fase adulta, foi o que me ajudou a me tornar o que eu sou hoje. Eu era aquele tipo de adolescente rebelde que as pessoas achavam que eu não ia dar certo, que eu ia ser marginal, algo do gênero. E eu sinto justamente que por eu ser fora da caixinha, querendo ou não eu vivia em uma pequena camada da sociedade de São Paulo, classe alta, facilitava esse “rótulo”. Esse meio tenta te moldar excessivamente, eles querem que você seja igual aos outros. Sem saber, quando mais novo que eu era muito julgado por familiares.

Eu sinto que quando eu comecei a entrar em uma outra aventura da vida, que foi me conhecer, descobrir a meditação, filosofias orientais, mudar minha alimentação para o vegetarianismo fez parte de um processo de transição. Abraçar uma causa de não violência e viver de tal forma que eu fui me permitindo a descobrir que as emoções guardadas dentro de mim me machucavam e me tornavam perigoso. Elas faziam com que eu tivesse explosões de raiva e assim por diante. Então eu fui me transformando e eu sinto que hoje assim, independente de onde eu estiver eu estou super aberto e receptivo para aprendizados.

Eu aprendi a distinguir quem me quer bem de quem me suga, de quem me inveja. Quem quer compartilhar comigo algo que sabe e que tem de bom ou quem tem uma má intenção por trás. E eu acho que é uma tarefa muito árdua para qualquer pessoa identificar quem são os invejosos que estão a sua volta e quando perceber, aconselho que se afastem deles.

Cj MartimComo surgiu o convite para o seriado ‘A Cara do Pai’? Quais dores e delícias da  relação com seu pai?

LucasO convite pra fazer o seriado ‘A Cara do Pai’ surgiu mediante a um colega de profissão chamado Fábio Zambroni. Ele é produtor de elenco da Rede Globo, que ele já me conhece há um tempo. Creio eu que mediante a uma confiança no relacionamento, as conversas sobre vida, teatro, fizeram com que ele me ligasse e me convidasse. Eu conversei com ele em espanhol, porque no papel eu ia fazer um Argentino. Então ele viu que eu segurava numa boa e me escalou para o papel. E eu amei a experiência, foi muito boa. Particularmente por só falar espanhol, que já não é uma região tão confortável como o inglês é pra mim, então foi um bom teste, mas um teste já valendo, né (risos).

É muito delicado falar do meu pai, que com certeza é uma das pessoas que eu mais amo na minha vida, assim como minha mãe. Eu tenho um amor muito grande pela minha família. Não necessariamente por eu ter esse amor, eu sou aquele cara que vou ficar ligando pro meu pai todos os dias ou vou estar muito próximo dele. Na verdade eu não sou assim. Eu cresci tendo aquela visão de que meu pai era meu herói e lá na frente eu quebrei a cara quando descobri que ele não era um herói, mas era uma pessoa como qualquer outra. Com erros e acertos, um ser humano.

Durante muito tempo eu me apeguei à visão que eu tinha dele de achar. Logo que meus pais se separaram, eu morei durante 10 anos com meu pai e minha história de vida lá foi muito boa, mas foi em outro momento da minha vida. Então eu considero que eu já tive várias fases e etapas distintas na relação com meu pai. Já tive muito ódio e sempre tive muito amor, mas em algumas vezes o amor ficou encoberto por esse ódio. Graças a Deus nos últimos anos, a gente nunca mais teve nenhuma desavença, pelo contrário, a nossa relação é leve hoje em dia. Eu aceito meu pai pelo homem que ele é. Não me cabe julgá-lo como certo ou errado. Eu também não aceito que me julguem. Aceito que compartilhem e expressem sua opinião, principalmente as pessoas mais próximas a mim. Então acredito que é um direito que meu pai tem naturalmente, mas se tiver um julgamento, eu me afasto. Eu evito conflito, diferente do que eu fazia quando era mais novo.

Hoje eu valorizo muito meu pai, muito mais do que na adolescência. Meu pai me colocou pra trabalhar com 15 anos de idade. Ele me tirou da vida de playboy paulistano e me colocou pra trabalhar no centro da cidade, na empresa de office-boy. Eu parei de andar de motorista e comecei a andar de metrô e ônibus. Não tinha colher de chá nenhuma, mesmo sendo filho do dono da empresa, ele me colocou pra ralar. Com 16 anos eu trabalhava de terno e gravata, acompanhava os gerentes, era promotor de vendas, eu vendia seguro de viagem. Inclusive eu cheguei a fazer uma apresentação pra empresa inteira, comparando todos os seguros das empresas nacionais e das multinacionais que atuavam dentro do mercado do turismo. Então, óbvio que na época eu não valorizava. Eu achava que era um castigo que meu pai estava me colocando e só hoje eu vejo o quanto isso foi importante para o meu crescimento. Então meu pai, ele é foda.

Cj MartimFelicidade existe ou é uma ilusão criada para dar sentido à vida?

LucasÉ óbvio que felicidade existe. Nesse momento eu me sinto feliz por poder falar da minha vida. Acredito que algumas coisas nos alegram, nos deixam felizes, enquanto outras não. Quando a gente recebe uma boa notícia, ficamos felizes. Quando você descobre alguma coisa profunda, isso te deixa feliz. Quando você é aceito pela pessoa que você gosta e que você quer namorar, que você quer dar um beijo, você fica feliz. Se você tem um filho, pessoas e familiares próximos, isso vai te alegrar.

Eu descobri felicidade em coisas menos atreladas à outras pessoas, que é justamente isso. Eu sou feliz por sem quem eu sou. Isso não significa que eu não tenha dores, que eu não tenha dias não alegres, sem satisfação. Eu acho que esse conceito deve ser claro pras pessoas, que existe a felicidade, tanto quanto a tristeza. As duas se complementam. Na tristeza, a gente tem uma potência linda, só que não fomos educados dessa maneira. Fugimos sempre da tristeza, não a mostramos ao próximo e o pior: a maioria abafa a tristeza fingindo estar bem. Coloca-se uma séria de outras coisas a sua frente, para que ninguém perceba sua tristeza. E quais são essas coisas? Vícios mundanos, como beber, fumar, usar drogas, fazer sexo excessivamente, ter uma vida social excessiva, consumo exacerbado, trabalhar em excesso e uma série de outras coisas. Tudo se torna em fuga, para aquele que foge de sentir o que tem dentro de si.

Então, eu acho que assim só quem é capaz de sentir a verdadeira tristeza é que é capaz de sentir a verdadeira felicidade. E nem sempre foi assim pra mim, eu fui me aprofundar na verdade. Eu pratico, no momento eu não estou praticando, mas pratiquei durante cinco anos uma terapia corporal chamada bioenergética. Resumindo, ela te leva para o corpo emocional. Então você descobre as alegrias e as tristezas que a gente carrega desde a infância. Então através do processo, pouco a pouco, eu fui enraizando, descobrindo uma série de emoções guardadas no meu corpo. Enfim, essa é minha opinião.

Cj MartimJá sofreu algum tipo de assédio sendo modelo? Por que muitos tratam uma pessoa bonita como um simples pedaço de carne, que podem pertencer a elas?

LucasEu nunca sofri um assédio, como às vezes você lê em uma matéria ou daquele famoso teste do sofá. Nunca rolou comigo. Não sei se nunca rolou porque eu nunca me disponibilizei as circunstancias de situações como esta, mas assim, eu sei que isso existe, mas acredito que seja de cada um. É a sua energia que vai te levar pra essa situação ou não, e mesmo se acontecesse, né. Hoje em dia, um convite com esse cunho sexual por trás, com jogo de cintura cabe à pessoa escolher ou não. No meu caso, eu sei o que eu quero não quero, e tudo que eu almejo é através do meu merecimento. Esse merecimento se dá através dos meus estudos, do dia a dia, das habilidades que crescem e que se expressam. Agora, a aparência sim. A aparência com certeza. Eu sou tratado até hoje como um pedaço de carne por muitas pessoas, por mulheres com quem eu já me relacionei ou me relaciono. O meio tem si tem essa visão das pessoas consideradas bonitas, quase como se você é bonito, consequentemente você é burro. Por você ser bonito, você é só uma casca. Existe sim esse preconceito. E acredito que no meio dos atores mais ainda, porque uma série de pessoas bonitas têm muita prepotência e arrogância. Naturalmente o prepotente e arrogante afasta as pessoas dele, então faz com que as pessoas criem essa opinião sobre as pessoas bonitas. Aquela velha história, para cada regra, têm suas várias exceções.

Eu conheço e convivi com várias pessoas que são lindas e que são profundas, envergonhadas, não usam a aparência para conquistar os outros ou até mesmo coisas. Conquistam através do interior, da palavra, da troca. Isso me machuca. Especialmente quando se trata de um relacionamento, com uma namorada. Quando você sente tanto nas entrelinhas, como na comunicação direta, que a pessoa te olha como se você fosse um troféu. Por você ser meio famosinho, por ser bonitão e assim por diante, uma coisa muito superficial e ilusória. Mas eu graças a deus aprendi a reconhecer quem é quem.

Cj MartimQual a relação que tem com o mar? O silêncio do mar já causou em você angústias?

LucasEu acho que minha relação com o mar vai pra dois pontos. Eu em si, não sou uma pessoa de ficar muito tempo no mar, digo isso até porque tenho alguns amigos surfistas e eles passam quatro, cinco horas por dia no mar. Eu não sou uma pessoa do mar, embora eu o ame, ame areia e ame praia. Brinco de falar até que preciso deles para o meu bem estar. Ver um nascer do sol, um por do sol, até mesmo encontrar um amigo. Moro no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, bem em frente à praia. Eu escolhi isso pra minha vida justamente por esse bem que me faz.

Eu tenho facilidade de me conectar em lugares de praia, mar, natureza. Então essa relação é importantíssima pra mim porque me traz resiliência, ela me deixa natural, me deixa enfim. Resiliente é uma palavra muito boa. Teve uma fase da minha vida, quando eu morava em Miami e estava lendo o livro “O Poder do Agora”. Teoricamente eu estava vivendo um sonho, tudo acontecendo na minha vida, o trabalho estava fluindo mais do que nunca, as perspectivas eram ótimas, financeiramente eu estava bem, estava ótimo com toda a minha família. Então aparentemente tudo estava bem, mas como eu estava me aprofundando e questionando, eu observava que minha mente sempre queria mais.

Eu sempre reclamava, sempre faltava algo, qualquer opinião que vinha do Brasil me machucava e eu ficava frágil. Então, o mar e a praia era um lugar que eu ia todo dia de noite. Pegava meu skate ia pra praia, parava na areia e conversava com o mar, com as estrelas. Era uma grande viagem. Um momento muito lindo de troca com a natureza sabe? Era quase como se fosse um lugar que eu me sentia seguro para conversar sobre minha vida. E acabava mesmo sendo como se eu tivesse conversando comigo mesmo. Era apenas eu, a lua, o mar, as estrelas e o vento. Obtive respostas muito melhores do que conversas com pessoas.

Cj Martim: Qual seu conceito de amizade?

LucasPra mim é o mesmo conceito de família. É amor, pode sentir raiva, sentir tristeza. Não existe perfeição, mas conheço muita gente. Fico até surpreso com o número de pessoas que encontro quando saio, que eu nem imagino. Mas amigos mesmo eu tenho poucos. Eles sabem quem são, eu sei quem eles são. Nós sabemos porque somos amigos. Amigo pra mim é aquele cara que você pode ligar pra contar uma notícia incrível da sua vida, que vai mudar tudo. Esse seu amigo vai vibrar com você, vai colocar seu pé no chão pra não viajar. É aquele amigo que quando você fizer a maior cagada, você vai poder ligar pra ele pra contar. São pessoas que você pode compartilhar as alegrias e as dores, e ao mesmo tempo é aquela pessoa que você pode se sentir livre pra falar sobre qualquer coisa e ela não vai te julgar. Os bons amigos cuidam de você até a distância. Amizade pra mim é algo bem profundo, de amor e carinho.

 

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2 comentários sobre “Lucas Bernardini: ‘Eu aprendi a distinguir quem me quer bem de quem me suga, de quem me inveja’

  1. Vera louzada disse:

    Lucas,bem bonito o que falou! Que bom que tenhas sentimentos de amor!
    Desejo todo sucesso pra vc! Te vi crescer!E gostaria de passar uma frase,que li e guardei pra vida!
    Deus sabe o que faz!
    Deus sabe o que leva!
    Deus sabe o que traz,!
    Amizade,sentimento verdadeiro! Que transforma a vida das pessoas!
    Os verdadeiros amigos,conhecemos como eles estao ,no simples tom de voz”
    Bjos no coracao ❤️
    Sucesso pelo!

    Curtir

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