Leonardo Zanchin: “Artistas não são pessoas exploradoras ou cruéis”

Leonardo Zanchin. Foto:  Cristian Mazzetti

Leonardo Zanchin, ator, é o entrevistado da semana. O Neném, da fase jovem de ‘Quanto Mais Vida, Melhor’, foi defendido por ele. Em papo exclusivo, o artista explicou como lida com o caos da pandemia, as dores e delícias da primeira novela e comenta os ataques que a classe artística tem sofrido de forma gratuita pelas autoridades e ignorantes em geral. Confira!

cjmartim: Saturado, angustiado ou conformado com a pandemia que assola o mundo?

Leonardo: Não dá para ficar angustiado o tempo todo, precisamos entender o que aconteceu no mundo e mudar muitos hábitos. A gente acaba se conformando, por mais doloroso que seja. Graças a Deus não perdi entes queridos, mas já estamos em tempo mais flexível e podemos curtir mais esse momento, tomando as providências necessárias e estando atentos para não bagunçar mais ainda as nossas vidas.

cjmartim: Como foi o processo de composição do Neném na fase jovem?  Quais elementos foram necessários tanto no físico quanto emocionalmente?

Leonardo: Fiquei muito feliz quando fui informado que eu seria preparado para isso. Preparação para criação, junto com atores e preparadores, treinos de futebol. Foi um pouco lento no começo, eu fui pegando o jeito da bola, conhecendo melhor o Neném. Ainda era uma fase bem ruim da pandemia, então muita coisa era feita por videoconferência com os preparadores, e eu ia adicionando as informações e o que a gente debatia no meu roteiro. Eu também pude ter dias em que me sentia por dentro da produção, colocava aqueles macacões de proteção da Covid-19, e acompanhava algumas cenas do Vladimir, ali junto com a produção mesmo, ou do switcher junto com a diretoria. Foram muito ricos esses momentos, que depois ficaram difíceis de acontecer novamente, pela demanda de treinos e já iam começar as gravações. Deu pra pegar bastante coisa da trama e principalmente de como o Neném era interpretado na fase adulta. É muito importante se familiarizar com todos da produção, vamos trocando informações, e ficando mais à vontade no espaço de trabalho.

Na parte física, peguei o gancho de ser esportista, isso era novembro/20 e eu não fiquei parado durante a pandemia, tive aulas com personal trainer, então cheguei quente para as preparações do futebol. Claro que são outras articulações, novos movimentos, outro tipo de preparo físico, estava ali pronto para aprender. Jamir Gomes, ex-Botafogo, foi meu preparador e ele tinha uma boa dinâmica, os treinos aconteciam em um gramado dos Estúdios Globo, e a cada semana eu sentia uma melhora. Eu nunca fui muito bom com futebol, exige muita técnica, mas foi uma experiência única, representar uma paixão brasileira estava em minhas mãos, eu queria fazer acontecer.

O emocional foi um pouco mais tranquilo, as cenas do Neném jovem são mais com a Carol Macedo (Rose jovem) e Maíra Sá Ribeiro (Jandira jovem), são os pares românticos da vida do Neném. São cenas mais intensas de amor e paixão. Algumas cenas exigiram mais da emoção, pelo que vai acontecendo com esses amores, e são experiências boas de se viver em set, como minha primeira novela, foi muito gratificante para mim. Claro que foi uma grande honra dividir um pouco do set com dois grandes nomes que sempre admirei muito, Elizabeth Savala e Marcos Caruso (Nedda e Osvaldo, mãe de Neném e o empresário amigo da família). Aí já entrou no emocional de contracenar com eles, é muita euforia envolvida. Foi memorável e de muita riqueza.

Caroline Macedo e Leonardo Zanchin. Foto/ TV Globo

cjmartim: Antes vítimas, os artistas atualmente são vistos como algozes, exploradores. Esse descompasso começou quando?

Leonardo: Artistas não são pessoas exploradoras ou cruéis. Se for para explorarem, que explorem minha arte e o que eu tenho a entregar, emoção. Artistas mostram algo novo, e o que fizeram no passado fica para recordar. Vimos muito isso em reprises, ou quando você assiste a um filme que você já viu. Sem shows, sem eventos, sem novas tramas de imediato, a pandemia nos mostrou ou recordou, algumas artes já vividas, muitas peças teatrais online. Os artistas movimentam o que se vê, o que se ouve, o que se sente. Longe de ser algoz. 

cjmartim: ‘Quanto Mais Vida, Melhor’ vem em um momento mais “ameno” da pandemia. Isso aumenta o peso da obra para não ficar vinculada somente a esse período triste da história?

Um momento mais flexível sim, mas seu resultado. Foram 12 meses de trabalho, a novela mais longa em termos de gravação para alguns atores mais “das antigas”. Como foi minha primeira novela, já tive esse ritmo como experiência, espero estar em um próximo produto com ritmo a todo vapor! Porém, na trama eles vivem um momento pós pandemia, um futuro bem próximo para nossa realidade. Eu acompanho os comentários em tempo real durante a exibição da novela pelo Twitter, estão se envolvendo com os entrelaços que a história oferece, isso acaba não ficando saturado a esse momento ruim do mundo.

cjmartim: O brasileiro aprendeu a gostar de cinema brasileiro ou a resistência ainda é muito grande?

Isso é um pouco relativo, generalizar que todo brasileiro não gosta do nosso cinema. Eu amo. Talvez falte mostrar mais para nosso povo o quão difícil é fazer um filme no Brasil, e difícil também pro ator conseguir ao menos um teste, quando vem uma aprovação então, é muita felicidade. Os temas são diferentes, nem todo tipo de filme vai agradar a todos, é um conjunto.Fotografia, trilha sonora, trama, tipos de personagem, se é ficção ou baseado em fatos reais. Geralmente quando tem história real é sempre mais interessante para o brasileiro, a galera gosta de ver o que realmente aconteceu, e quando o autor cria, vai de cada um se sensibilizar ou se divertir com o que está querendo ser mostrado. Filmes brasileiros têm histórias, muitas são bem divertidas, outras mais dramalhões, mas vale sim exaltar o trabalho do cinema brasileiro em todos os aspectos. E não pensem que fora do Brasil é tudo fácil para a conclusão do trabalho não. Bohemian Rhapsody, por exemplo, foi abandonado pelo diretor e quem tocou o projeto foram os próprios atores. E quem não se diverte com as estripulias de O Auto da Compadecida? Cinema nos move. Quero muito fazer filmes, histórias reais ou criadas, sair do meu eu e perambular por outra vida contando sua história.

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